Se me fosse permitido, destruiria todos vocês. E eu me alimento disso. Me alimento do homem que sai do carro e mata o outro motorista. Me alimento do homem que mata o outro por dinheiro. Me alimento de você, que entende errado e grita, agride. Me alimento de você, que vê alguém diferente, e se reúne com seus semelhantes para agredir o diferente. Me alimento da violência. Me alimento do homem que bate em sua mulher. Me alimento de empresas destruindo outras empresas. Me alimento de pessoas furiosas por não conseguir a promoção desejada. Me alimento do grito, me alimento da raiva. Me alimento do ódio que cresce com o passar dos dias no seu coração.
Eu sou... A IRA.
Mas se você pensa que eu vivo gritando aí pelos cantos, pense de novo, seu mortal insolente. Eu sou a Ira, mas não é por isso que eu vivo do que sou. Só houve uma vez em toda a história da humanidade que eu me irritei, e a consequência disso, você vê, os reles mortais gostam de chamar de: A Guerra Mundial. Não vale a pena explicar porque que me irritei desta forma, se não ficarei irritado novamente, então, pulemos essa parte. Eu posso agir juntamente com a natureza, e provocar seus fenômenos mais destrutivos... Mas assim não me divirto. O que gosto mesmo é de jogar com humanos.
Eu não tenho o costume de sair do meu escritório, pois sempre tenho muito à fazer, você vê. E muito menos o costume de visitar essa raça patética da qual eu me alimento. Eu apenas vendo o meu produto, que é absurdamente caro, mas por incrível que pareça, com o passar do tempo as pessoas parecem querer pagar mais por ele. Quando basta apenas um empurrãozinho... Mas bem, não quero pensar em negócios nesse momento quando estou intrigado por uma causa maior.
Eu recebi o convite. Ele quer reunir todos nós, em uma só sala, para discutir um plano. Isso certamente é insano, dado que todos nós nos odiamos, mas além disso, todos nos o odiamos. Reunir tantos inimigos em um só lugar, é uma atitude muito corajosa, ou muito mais estúpida. A hora da reunião se aproximava, e inquieto comecei a ficar com raiva. Escutei a batida na porta do escritório.
"Entre."
"Senhor, seu carro está pronto." Avisa o mordomo sem olhar nos meus olhos. "Ótimo, estou à caminho." lhe respondi.
Fui até meu quarto, sentei na minha enorme cama e abri a gaveta da cabeceira. Peguei a minha Colt 1894 de ouro, afinal, era necessário que levássemos as nossas relíquias, outro fato que me causou assaz curiosidade. Desci as escadas de mármore, e fui em direção à garagem. Apesar de ter uma casa extremamente luxuosa, gostava de passar a maior parte do tempo no meu carro, que não só era minha relíquia como meu santuário.
Entrando na garagem nem foi necessário acender as luzes. Eu conhecia de cor todos os mínimos detalhes do meu Dodge Charger RT. Nele entrei e tive uma sensação enorme de prazer, e logo liguei seu motor estrondoso, que clamava por velocidade, e sentei o pé em cima do acelerador com toda vontade. O carro rugia pelas ruas de Detroit, rumo ao ponto de encontro.
Chegando lá, estacionei com o devido cuidado, e fui andando até a recepção, onde eu o avistei. Trajava um terno preto risca-de-giz, com uma camisa de mesma cor, e uma gravata puramente vermelha. Tão vermelha que se olhasse fixamente para a mesma durante muito tempo, era capaz de ficar cego.
"Ira, que bom que veio. Por gentileza, queira me acompanhar." E estendeu o braço para mostrar o caminho.
"Sem cordialidades, sua cobra, diga logo o que você quer." E a raiva dentro de mim crescia. Não podia dar certo essa reunião. Não iria dar certo essa reunião.
"Não abuse da ira, meu caro." Com uma risada desdenhosa ele disse. "Tenha paciência, entre na sala e aguarde o início da reunião. O Orgulho já está lá."
Com um olhar severo passei por ele em direção à sala mencionada pelo mesmo. Entrei, e vi minha poltrona imensa, mas completamente destruída dos meus socos e acessos de raiva. Não entendi o significado daquilo, mas senti que ele estava perto. Orgulho me cumprimentou, e do outro lado da mesa, fui até a minha poltrona, onde sentei confortavelmente, e tomei um gole de vinho. Não conversei muito com o Orgulho, não estava muito disposto para animosidades. Peguei a placa que jazia na minha frente com meu nome, e a amassei com toda força que tinha. Joguei-a um pouco à frente, mas ainda era possível de ler:
A IRA"
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