Os Ecos de Aforismos Nitzscheanos.

Cada vez fica mais claro para mim,
Que a caneta deve escrever de volta,
Não desdizendo o que foi dito,
Mas redizendo o que foi feito.

Menos setas apontadas,
Menos juízos de valor,
Mais adjetivos positivos,
Mais frases sobre o amor.

Não que esse mistério jamais resolvido me traga algum resultado,
Ante a face da tristeza,
O mistério muitas vezes é a alegria em si,
Tratar de amor, ou é ser feliz, ou é querer estar feliz.

Mas o tempo,
Esse senhor que nos quer impor sua vontade,
Inimigo dos amantes secretos,
Dos inseguros,
Hoje em dia, dos românticos perdidos no tempo.

E eu?
Escritor, pecador,
Condenado pela moral construída de forma histórico-social,
Sento no chão e vejo as pessoas passarem com tanta pressa,
Com tanto dissabor da vida,
Escravos de uma tela e um toque, e só depois
Escravos da sua própria dor.
Talvez o meu pecado original,
Seja não conhecer o limiar da libido e do amor.

Tantos se's, tantos não's,
Andar em linha reta sem fazer curvas pode te fazer chegar primeiro,
Mas o amor está nas curvas.

Uma Pequena Representação Vermelha.


No princípio, era O Homem.

O Homem sempre andava pra frente, ou achava que andava pra frente, sem nunca olhar pros lados, ou pra trás. Passava sempre por muitos lugares, por muitas pessoas, muitas histórias e bifurcações. Quando o dia chegou, o homem parou ao pé de uma montanha, tão larga que ele não conseguia ver onde ela terminava, e tão alta que seu cume era oculto pela densa neblina que circulava a pele de neve da montanha. Ele ouvira sobre essa montanha. Era a Montanha da Verdade, assim chamada pois era sabido pelo Homem e todas as coisas, que no cume da Montanha, havia a verdade sobre todas as coisas.

O Homem parado ao pé da montanha questionava-se sobre essa verdade de todas as coisas. Na verdade, toda a sua jornada se resumia à encontrá-la. O Homem jurava que sua jornada era infinita, mas ver a montanha ali, em frente ao seu nariz, o fez retesar-se. E se a verdade sobre todas as coisas simplesmente não existir? E se a jornada toda tiver sido em vão? E se ela existisse, mas não estivesse ao alcance d’O Homem?  Os homens que a buscaram, já a encontraram mas não quiseram partilhar dela, ou simplesmente morreram no caminho? Qual seria o sacrifício exigido pela subida? Sobreviveria O Homem a tanto? Seria a verdade de todas as coisas, também a origem de todas as coisas, ou muito mais que apenas isso?

Eram tantos “e se”, que a inquietação já não provinha mais das questões, mas sim do fato de estar inquieto. Deu então seu primeiro passo depois de uma longa pausa e decidiu conscientemente, que ele criaria a identidade de sua partida, tão artificial como qualquer criação humana. Com uma pequena representação vermelha, tirou de sua testa o lenço vermelho e o fincou-o no chão, amarrado num graveto. Parou e refletiu sobre essa peculiar atitude d’O Homem de deixar rastros de sua identidade pelo caminho percorrido. Que necessidade era essa? Olhou o caminho à frente, e percebeu que não havia sequer algum referencial por onde começar, apenas o chão branco e liso,  moldado pela neve. Em frente então, O Homem seguia, pois sempre fora o que ele tinha feito. E que caminho que era… A subida era demasiado ingrime para as pernas cansadas d’O Homem, onde haveria de conseguir comida? Onde haveria de conseguir abrigo? Só se fez estas perguntas de cunho biológico quando o psicológico identificou já sinais de problema, ainda se perguntando com que frequência isso acontecia.

O ambiente era hostil, e talvez isso fizesse da determinação do homem de sobreviver, tão hostil que ela precisasse se sobrepujar à hostilidade do ambiente. Quem sabe um defeito, uma querela psicológica. Pensou-se, e viu que essa necessidade era tão antiga quanto o princípio. Não a necessidade de convivência, mas de dominação. Antes da dominação do homem sobre o próprio homem, a dominação do homem sobre a natureza, e não a conivência mútua. De onde era esse inconformismo do ser, que obrigava-o subconscientemente a ser e ter? Esse instinto de sobrevivência, transformava-se em instinto de dominação, em raiva subconsciente por estar exposto não à hostilidade da montanha ou do ambiente, mas à um inconformismo prévio com a própria morte. A não-aceitação da morte, da vida fugaz, faz o psicológico trabalhar com uma negação, o que teria como fim o subconsciente violentando as vontades do homem, sem aviso prévio. Porque tanta dificuldade com a aceitação da morte? O Homem mesmo, no princípio venerava a morte, e hoje a repudia, a nega, a desconhece. É a morte que faz o homem?

Logo O Homem viu que seriam mais perguntas do que resoluções que encontraria na árdua subida, e encontrava-se ainda muito distante da neblina, a clareza ainda o ajudava em tese. A temperatura baixava a cada passo, e nem mesmo trinta tinham sido dados. A respiração já era ofegante, e o cansaço, potencializado. Humano, demasiado humano, O Homem e suas limitações avançavam de maneira trêmula e exaustiva, e talvez a verdade sobre todas as coisas não estivesse em seu alcance, nem de todos os outros que tentaram alcançá-la.

Mas recusava-se a extinguir-se deitado no frio. Apenas recusava-se. Via mais uma vez que movia-se através de uma negação, e se questionou sobre até que ponto o ser humano usa a negação para construir e construir-se. Mais importante ainda no momento, era dar mais um passo. Por quê? Pra quem? Se O Homem esperava a morte solenemente, porque dar mais um passo? De onde era essa débil resistência contra a morte certa, contra as suas limitações biológicas? Seria um problema do ego? Pensou O Homem, que tudo fosse uma ferida aberta para sempre, onde seu subconsciente se dá conta de que as limitações biológicas são imputadas pela natureza, e daí advém a raiva, a negação, e a necessidade de dominação d’O Homem. Também, deu-se conta que a negação da morte, era também a negação da limitação biológica do homem, ou de forma mais abrangente, de sua imperfeição. A negação chega em tal ponto, que a culpa é projetada em outra instância de poder, chegando em níveis até transcendentais. O Homem culpa a natureza por não tê-lo feito perfeito, e uma figura projetada como progenitora de todas as coisas: Deus. Sobre esta última parte, O Homem não quis se demorar neste momento. Saberia que não iria morrer, simplesmente por saber, e que noutro momento se deitaria em discussão tão ampla.

O que importava era a teimosia da existência. Ou melhor, a teimosia em não deixar que essa existência se transformasse em uma eminente não-existência. Ficou incomodado também como tudo que articulava partia de um pressuposto negativo, ou seja, a construção pela desconstrução, ou ainda, o ser pelo não-ser. Havia uma necessidade d’O Homem de provar que ele conseguiria permanecer vivo, à todo custo, e também numa segunda consideração, a todo instante.

Quando sua temperatura parecia se esvair do seu corpo como a sabedoria que corre do arrogante, O Homem deitou-se de costas na neve, com o vento cerrando friamente seu corpo sem a mínima piedade. Será que O Homem não poderia jamais aprender a conviver com a natureza, sendo parte de um grande organismo, e não tentá-la dominá-la e sobrepôr-se à ela? A sua teimosia em continuar vivo, que expressava sua ganância subconsciente pelo encontro com a verdade, eram provas de que mesmo com uma intenção aparentemente nobre, O Homem não teria limites para medir seu nível de extração com a natureza, ou seja, ele jamais se contentará em coabitar com a natureza até exauri-la completamente?

Uma última pergunta o perturbava mais do que todas. Seria o preço pago para a jornada em busca da verdade, sua vida?

Descobriremos que de certa forma, sim.