Não.
Por que relegar infelicidade e tristeza ao dia? Que seja um dia de uma preguiça solene e feliz.
Que seja o dia de acordar tarde, ou acordar cedo. De olhar na janela e ver o mundo, de cheirar e experimentar com os olhos, a urbanidade cortada ora aqui, outra ali, por uma árvore.
Nada de roupa. Declaro o dia oficial do pijama!
Nada de roupa. Declaro o dia oficial do pijama!
Aquele chinelo bem velho se o chão estiver frio (e é bem legal quando está), uma ceroula samba-canção muito larga, com o tecido puído de tantas lavagens, o elástico que já não puxa mais, bem confortável. Uma camisa de meia-manga com um furo num lugar aparentemente irrelevante. Cabelos despenteados, barba bagunçada, e o bocejo constante. Passos lentos, seja para qual cômodo da casa for, afinal, é domingo, e no domingo é dia de não sair de casa.
Café-da-manhã, já que agora você tem tempo. O que vai querer?
Pão, frios, ovo mexido, um leite com achocolatado (tentando fingir imparcialidade na marca, quando todos sabemos que Nescau ganha de tudo), manteiga, vez ou outra uma vitamina, quando a paciência de ligar o liquidificador para bater tudo aparece.
Voltar pra cama e ver TV? Sim, por favor.
Se arrastar entre os lençóis pra lembrar que hoje o tempo não é o seu senhor, e que você pode sim deitar a cabeça de novo no travesseiro sem culpa, com aquele sorriso meio-aberto e os olhos meio-fechados.
Um filme, um seriado, enquanto o almoço não sai... A comida tarda, é apenas mais um domingo.
Ler um pouco ou jogar um pouco. Talvez sentar no computador e ver o que o mundo tem pra te dizer hoje. A maioria das pessoas te acompanha na preguiça coletiva, é visível, mas gosto muito de falar.
Um filme durante e após a refeição, para digerir o alimento que geralmente meu pai compra na feira local quando o mesmo faz o almoço. É um domingo.
As cenas levam o tempo embora, e já é final de tarde. Gosto tanto quando posso ficar sentado na poltrona e está frio o suficiente para me cobrir com uma colcha velha de estimação, repousando imóvel e quieto. A semana inteira o barulho do mundo mantém as pessoas em constante atividade. Não. Domingo é o dia do meu silêncio, para mim, para você, dia do silêncio de cada um. Domingo é dia nenhum que você pode chamar de seu.
Acaba o filme, apago a televisão e ouço a chuva bater na janela. Domingo é o dia de eu falar calado pra ninguém ouvir e de conversar com a natureza (que está em falta nesses dias tão cinzentos). É hora do banho.
Um banho quente, para arrepiar a pele e não dar vontade de sair do box, e já correr de volta para os pijamas velhos e macios que esperam sossegados em cima do colchão. Cantar no chuveiro os punks mais nervosos e esboçar pequenas danças acanhadas pelo medo do sabão no chão. Toalha grande e macia, desodorante, despenteado, um beijo para o esquisitão que fica me olhando do outro lado do espelho. É apenas mais um domingo.
Esperar a pizza, ou um lanche. Nada de dieta ou rigor qualquer. Domingo é domingo.
Comer enquanto ouço música e jogo, ou vejo televisão. Nada melhor que mais uns rocks malucos e uma coca-cola. Comum. Hoje não é dia de se privar de nada. Hoje é dia de ser, e ser, tudo aquilo que é, sem coerção própria.
O dia se aproxima do fim, e a preguiça faz seu rumo de volta pra cama. Já que o dia acabou, revivo toda a preguiça de novo na minha cabeça, porque não? Afinal, é um domingo, e domingo é meu dia.
Um Jazz ou Blues pra relaxar. Dave Brubeck ou Chet Baker? Deixa o aleatório decidir pra mim. Nas horas finais do cansaço, técnicas de meditação pré-sono. Um pouco de filosofia oriental do relaxamento faz muito bem, descobri.
Estudos recentes comprovam que quem vive os seus domingos fazendo de seu domingo, seu, vive mais (feliz).
Fontes?
Não. Hoje é domingo.
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