Conheci Um Morango, Quase Sem Querer.

Conheci um morango. Não daqueles misturados entre outros morangos numa caixa qualquer em uma feira de domingo. Nem daqueles morangos que parecem-se com outros morangos e são outros morangos por serem iguais aos outros morangos, não. Esse morango é exuberante, novo, mas que repousa suave e confortável num espaço seu, sem invadir o dos outros. Até que alguém abusado vem e tira o morango de seu suave sossego realmente quase sem querer. Nesse meu fascínio pelo novo e histórias novas que se recontam, achei um morango que queria conversar, e queria ser ouvido, mas sem dizer nada.

Ué...

Acontece que dialoguei com ela sem muita conversa, afinal, era um morango que eu reconhecia a existência, mas ainda não tinha estabelecido contato. Conversamos em descaminhos. Eu ia pegar o ônibus da minha faculdade, mas resolvi de súbito ir de metrô. Ela ia pegar o 107, mas o tempo não a deixou esperar e também foi de metrô. Descaminhos que conversaram, embora em seus escritos o morango já tivesse conversado comigo. Eu lia, relia, fazia perguntas, e ela me respondia, ali, entre uma palavra e outra, naquele espaço em branco. Mas e isso, o que é isso que faço agora? É uma grande formulação de opinião sobre um morango? Não, longe disso. É uma brincadeira de contar histórias, brincando de adivinhar as entrelinhas de histórias de um morango que esbarrou na minha história. Gosto de contar histórias. Gosto também de ouvir histórias e contos dos outros, mas aqui falo do morango. Além, falo do que tentei adivinhar do que o morango disse, não-dizendo, na poesia do silêncio. Digo um morango, no indefinido, porque acho chato, e me parece que o morango também não é muito favorável à formas pré-estabelecidas, limites. Deixo indefinido então a existência do morango que pode ser tudo o que o morango quiser, na beleza de uma liberdade jamais pré-estabelecida e sempre mutável. Aliás, parece que o morango gosta de ser sempre uma coisa nova, e não ser sempre a mesma coisa, dentro de uma linguagem que me é familiar e palatável, mares que consigo navegar com tranquilidade.

O morango expressa uma nítida vontade de conhecer-se. Afirmações metralhadas no infinito de como ser e o que gostar, é possível observar e entender, que o morango tenta se reconhecer sem conhecer uma forma que realmente a defina de verdade em suas palavras, que repetem-se. Solidão, medo de estar só (e o que e é estar verdadeiramente só?) ou medo de não achar o outro que lhe dê sentido? Tenho medo de estar só. O meu eu é a crise freudiana, precisa completar-se num outro. Pode não ter nada a ver, entretanto consigo me reler aí. Talvez isso seja o tipo ideal kantiano, que não exista de fato, embora sirva para nos manter em movimento e sempre ir para algum lugar. Só que andar cansa, não é?

Nos versos que conversam há sempre o diálogo do morango com um outro eu. Logicamente, pelo tempo, não é provável que seja o mesmo eu, mas sempre um eu que não-corresponde onde talvez o morango queira encaixar um pedaço de si num pedaço de um outro si, o que é bem legal, costurar os retalhos de histórias desconexas e montar a tela de um quadro em branco, um espaço de possibilidades. Silêncio e poesia, são suas formas de ver o mundo, e a fugacidade intensa, sua forma de experimentá-lo. Não o efêmero, aquele amontoado de segundos sem nexo causal, que as pessoas buscam como forma de contento pessoal, não, mas o fugaz, o reconhecimento de que o tempo vai continuar correndo e que as coisas passam, até mesmo o próprio morango passa dando aberturas para que o morango tenha novas formas. Mas até quando será um morango?

O morango fala muito de amor e de tristeza. E porque não falar? Toda vez que se conta uma história é impossível contar da forma como outrora fora contada, então toda vez que ela enuncia uma nova palavra, ela enuncia uma nova opinião de um novo ponto de vista. Uma mutabilidade declarada, anti-platônica por excelência, do ser imutável e as virtudes que são sempre a mesma coisa. Não me parece que o morango necessite sentir-se como a erudição encarnada, pois a simplicidade das coisas parece lhe aprazer, dentro de emoções e sentimentos viscerais, crus, brutos, em sua essência, seu cerne, de forma a atingir o âmago, intensamente, numa intensidade que quer se fazer presente e sentida. Tudo isso está onde ela não diz alguma coisa, onde o morango não escreve, mas deixa ali, pra que alguém leia.

Curioso também a constante presença de abraços. Gosto muito de abraços, a sensação é maravilhosa, tão logo, concordo com o morango, que parece gostar de abraços tão bons, que completam e dotam a existência em si, de sentido, do eu, com um outro e não em si mesmo, sendo o ato primeiro de dividir afeto. Nada de egoísmo, não, a não ser quando trata-se de uma coca bem gelada, aí dá briga, como provavelmente daria com alguém que fale mal de The Smiths. Gosto de The Smiths, e U2, e Legião Urbana, muito mesmo, principalmente o último. O morango em suas assertivas deixa muito claro suas intencionalidades, deixa transparecer o que quer, e mostra que sabe o que quer, até certo ponto, porque a dúvida é sempre saber o que querer.

A vida e as ações humanas me atraem, parafraseando o morango. Fico assim, misturando a vida com a poesia, a palavra como alimento do espírito, as histórias como vidas em si, sendo uma lojinha velha num canto de rua, que vê as pessoas passarem e vez ou outra pararem pra ver o que eu tenho pra oferecer. Se for pra julgar alguém, julgo-me como feliz, de ter podido contar essa história, e agradeço, ao lindo morango, por na leitura de seus escritos ter me relido.

Mas é esse o fim da história? Não.

Essa brincadeira de adivinhação, é só a superfície.

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