415 Teorias Quase Sem Querer.

Há quem prefira momentos de epifania completa, e quem acredite na convergência de um cosmos ou algo transcendental que leve a um momento plenamente sublime. Eu não, prefiro acreditar na paixão pelos minuciosos detalhes.

É como prefiro explicar de forma simples um enorme esplendor que se faz presente na minha vida ultimamente. E toda beleza reside em pequenos detalhes que formam algo muito simples, porém dotado de um sentido tão vasto. Não, apesar de eu ser um poeta perdido nesse tempo duro e sem arte, não é difícil de entender o que aconteceu, não se embole no caminho das palavras, apenas sinta-os, como eu faço.

Vê, é nítida a singularidade do ser, mas determinados seres tem uma singularidade tão específica, tão distinta e amável, que provocam pequenas revoluções por onde passam. O que acontece, simplesmente, é que por destino ou não, aos meus vinte anos me deparo com uma singularidade revolucionária.

Por mais que eu tenha o natural movimento de poetizar as coisas e pessoas, vou tentar explicar segundo minha paixão por detalhes como é essa singularidade revolucionária. Minha ideia de singularidade revolucionária compreende tudo que for singular, dentro de uma só pessoa. Não é apenas uma pessoa diferente, mas é uma pessoa diferente de tudo e que todas essas diferenças tenham um maravilhoso sentido.

Essa singularidade revolucionária, é muito curiosa, e tem particularidades que são demasiadamente peculiares, que me causam espanto e imenso gosto, e aqui tentarei enfileirar algumas. Veja, antes de mais nada, é necessário compreender que eu não abuso do materialismo histórico-dialético e não me projeto nela, sendo assim, não procuro pontos em comum, embora pensemos de forma igual, mas de forma muito diferente.

Somos singulares em nosso cerne, e em nossa comunicação. Nos comunicamos por palavras singulares. Ela, revolução, conflito, e eu, equilíbrio, psiqué. Mas os detalhes que mais gosto, são os que observo repetidamente, como por exemplo(s), a forma de gesticulação para concluir um argumento, ou para compreender um terceiro. Uma teimosia de construção sócio-histórica, um sorriso jocoso, porém gracioso, ao lembrar que voltou a ser caloura. Só que possivelmente a que mais me comove é a singularidade de falar com os olhos... Essa, é inexplicável, logo, não consigo compreender como funciona, e eu, um cara de movimentos do cerne das coisas, fico só admirando. Os olhos por trás das lentes ora expressam frases por si só, ora corroboram argumentos, e de qualquer maneira, há mais mistérios dentro desse mel, do que me é inteligível.

Sim, é singular. Mas o que a torna revolucionária?

Pra mim, não é o sentido em si, mas a causa e o efeito. Deixe-me exemplificar com uma singela situação:

Uma viagem na hora do rush, se transforma num maravilhoso momento de abstração e numa feroz e intensa troca de ideias e palavras, ''mas quais são as palavras que nunca são ditas''? Transforma o desconforto de um ônibus lotado, o calor, o confinamento em si, num espaço gigante de solidão à dois. Consequentemente, o que levaria 415 horas, levou 415 segundos.

Como compreender? Não sei.
Há de se compreender? Acho que não dessa vez, se não rompe-se o misticismo.
De incertezas e incompreensões, a única certeza: Estou muito feliz por ter encontrado uma singularidade revolucionária, e que qualquer meio de transporte leve à qualquer lugar, contanto que estejamos ali.

Sonho em Espiral

Deitei na cama com o cansaço martelando meu corpo após uma noite de intensa música, com o zumbido ainda no ouvido, apaguei, mas não sem sonhar.

"Abro meus olhos, e encontro-me deitado numa cama de lençóis brancos, nu, com uma mulher de igual forma na minha frente. Não vi sua face, e ela não disse uma palavra, mas eu sabia que ela era familiar pelo som de sua respiração. Era serena e tranquila. Aproximei meu corpo do seu para ouvir melhor a sua respiração, e sentir o teu calor, quando encostei meu nariz no teu cabelo e senti seu doce perfume, que exalava tanto por ali como pela sua pele. Olhei por cima de seu corpo, você tinha na mão uma caneta vermelha e um papel onde nada tinha, mas ainda sim não consegui identificar teu rosto, e na hora pensei também que se pudesse, metade da mística seria desfeita no momento, então deixei-me levar por tudo aquilo.

Na densa noite gelada, conversávamos, discutíamos, gritávamos e sussurrávamos sem dizer uma só palavra, apenas com o silêncio da nossa respiração, palavras mudas rasgavam a aura de raciocínio e se fundiam na nossa frente. Sem dizer nada, ela me perguntou:
- Você acredita no amor?
Mudamente respondi:
- Talvez. Acredito certamente no Ser, no Viver e no Devir.
- E o que isso quer dizer?
- Bem...
Em exasperações, inspirações, fungadas e sussurro mudo, eu a expliquei que o Ser era a intensidade, e de que para aquilo não tinha medida, eu era intenso, dessa forma. Eu poderia passar a vida inteira tendo uma nesga de afeição por uma pessoa, assim como poderia desenvolver um desejo explosivo e latente dentro de horas por uma. Eu a expliquei que minha ideia de 'pra sempre' duraria só aqueles minutos, depois eu a reinventaria, junto com tudo mais que fosse necessário. Em seguida, que o viver, ou viver a arte ou a arte de viver, era se entregar puramente à sua humanidade, se permitir sentir tudo o que quisesse, pois de tudo que pode ser sentido, tudo é humano, além de ressaltar que o meu viver busca sempre sentir e aprender novos sentimentos, o meu viver clama por realizar todas as utopias em questões de segundo, e dentro desses segundos compreender uma vida inteira, incorporando tudo que possível for do mundo, dentro de mim. É também a música, em todo o seu amplo sentido, desde as notas mais perfeitas até o que aparentemente não é dotado de sentido. Mas o que a surpreendeu na verdade, foi quando expliquei que nenhum desses dois depende do devir, que é o tempo em sua maestria corrosiva, pois esse Senhor inexorável tudo modifica, a seu bel-prazer. Que eu procuro constantes variáveis em suas fórmulas imprecisas, e quero tudo aquilo que se renova, assim como meu amor pelo paradoxo que a única coisa constante no tempo é que tudo se modifica.

Aquilo fez seu corpo se aquecer e foi quando juntei o meu ao dela. Sem a menor preocupação em reconhecer sua face, ali eu já sabia quem ela era e o que ela pensava. Pus minha mão sobre a sua, e comecei a desenhar o que até então ela não tinha começado. Na verdade deixei simplesmente que nossas respirações, que agora estavam sincronizadas em uníssono, conduzissem minha mão por sobre a dela e várias espirais vermelhas saíram dali. Junto com nossas respirações, fundimos nossos corpos e passamos a ser um par de um só, acelerando a respiração e reduzindo seu compasso, o Ser o Viver e o Devir dançavam ao nosso redor exibindo tudo de melhor que podiam, até que por fim descansamos nossa respiração, no mesmo momento que o sul pungente da manhã rasgava a aurora pelo vidro da janela e eu podia sentir com meu nariz em sua pele o sorriso tenro que ali jazia. O que se seguiria depois? Não sei, não me interessava. Eu vivia na base do improviso, e reinventaria nós dois em pouco tempo."

E quando eu acordei, foi impressionante tudo que eu lembrava com tanta perfeição, mas logo concluí que é porque talvez nunca tive um sonho que retratasse com perfeita exatidão todas as minhas concepções e realidade.