Café, Teria?

Copacabana.

Uma menina sai de um lugar que é um refúgio de silêncio no meio da violência sonora urbana do dia-a-dia. Ela andava até a Cafeteria que tinha um ar meio vintage, meio café-cult europeu e era perto de seu refúgio silencioso, numa avenida movimentada. Seu óculos quadrangular e cabelo comprido montavam uma aparência que não respondia ao tempo presente, acompanhados por sua sapatilha negra brilhante, enquanto um jeans parcialmente vinho com uma camisa preta estampando uma caveira em lantejoulas prateadas traziam a imagem do corpo de volta para nosso ano. Ela se sentava numa mesinha de canto do terceiro andar, onde ninguém reparava nela porque ninguém subia até o terceiro andar, mas ela reparava em todo mundo. Escrevia histórias, muitas histórias. Se ali também fosse um refúgio de silêncio, ouviria-se o som da furiosa dança da caneta no papel amarelado de seu moleskine. Os olhos moviam-se por trás da lente, pra lá e pra cá, e a caneta ia pra cá e pra lá, as pernas cruzadas, e o sorriso meigo da boca pequena surgia sempre que uma boa história montava-se no papel.

Urca.

Um menino sai em direção à Copacabana. Haveria um protesto pelos direitos de ser um cidadão livre, por ser um cidadão com direito de amar, e por um estado, não um Estado, de paz. Era uma época de revoltas e insatisfações populares. O menino ia, mas não sabia ainda muito bem o motivo, só sabia que queria ser ouvido por alguém. Que fossem gritos de revolta então. Mas revolta contra o quê? Ele não sabia ao certo, com o que era a revolta, mas se sentia oprimido pelo mundo e pelas pessoas, precisava ser ouvido. O tintilar dos metais e correntes presos às suas vestes que rugiam com seu andar apressado e bruto era massacrado pela vibração perturbadora que é a música urbana. O pé de coturno conversava com o outro num ''tudunc-tudunc'' cada vez que atingia o chão, e os dois estavam levando o rapaz pra onde os gritos ficavam mais alto, perto de uma cafeteria numa avenida movimentada em Copacabana.

Copacabana, Cafeteria.

A menina franze o cenho. A caneta em seu papel é interrompida e ali termina uma história sem fim que não seria mais retomada, por um som pungentemente crescente de uma massa eufórica que aproxima-se da cafeteria, caminhando na rua. Os gritos eufóricos são distintos, mas terminam todos em sua origem: Vontade de liberdade com uma marcha sonora e contínua. Milhares de mãos em punho cerrado rasgam o cenário urbano atipicamente, pois onde deveria haver uma chuva de luzes vermelhas dos faróis dos carros parados num trânsito sem fim, há um aglomerado insatisfeito e lutando. Ela não queria sair dali, mas ela também queria ver o que estava acontecendo. Ela não estava marchando, mas a alma dela entoava o coro insatisfeito várias e várias vezes dentro de si, e os olhos fechados depositavam a esperança naquela forma de manifestação. Ela manifestava-se de outras formas, cada indivíduo com a sua, mas continuava observando, agora já sem concentração para continuar rabiscando seu moleskine. Os outros espectadores que também pareciam pertencer ao local, assistam sentados a marcha, era um filme numa tela gigante do cinema da realidade, mas uma figura, uma forma não-pertencente ao local, irrompe na estética inusitada, mas a menina só perceberia tempos depois.

Copacabana, Avenida.

O menino andava na Avenina, com a multidão que se aglomerava e acalorava de uma histeria coletiva pelo livre no ápice do momento, onde todos pareciam ter uma certeza convicta da razão do grito, da enunciação do discurso, do volume explosivo da voz, menos ele, que tinha tudo isso, mas sem uma certeza cega. Nunca fora de confiar muito em certezas cegas, mas confiava no acaso. Bandeiras com signos e siglas e símbolos e sábios e sinos e santos dos sábados, que não faziam o menor sentido para ele onde quer que ele olhasse. Num descaminho, ele avistou uma cafeteria, e uma súbita vontade de tomar um café antes da revolução abateu-se sobre ele. Porque não? Entrou no lugar, onde muitos olhavam pra ele por ser muito diferente, por ser alto, por ser expansivo e desajeitado, já na entrada chutando a placa de "seja bem vindo" e derrubando uma cadeira. Era uma cafeteria mas muitas coisas estavam riscadas da placa com os preços dos produtos, pendurada em cima do caixa, tendo logo em seguida um adesivo de "em falta". Era uma cafeteria que tinha um ar meio vintage, meio café-cult europeu, mas e um café, teria?

Copacabana, Cafeteria.

O menino pediu um café, porque isso ainda tinha pelo menos, enquanto ela estava ainda perplexa com toda a agitação, pois aquele lugar sempre fora calmo o suficiente, com um silêncio equivalente à madrugada, onde suas histórias sempre tiveram um fim ali. O barulho a incomodava, não porque era barulhento, mas porque também era barulhento e de alguma forma roubava suas ideias e deixava suas frases sem vírgula ou ponto final. Ouvia passos aproximando-se, o que estranhou mais ainda, ninguém sequer cogitava subir as escadas até o terceiro andar, era seu andar. Quem é que teria a petulância de entrar em seu andar?

Copacabana, Cafeteria.

Depois que a garçonete muito simpática trouxe o café fervendo, o menino ficou incomodado de ser olhado por todo mundo sabendo que todos os olhos formulavam opiniões, e todas as opiniões formuladas pelos olhos eram tão simpáticas quanto os olhos de sobrancelhas rígidas em convergência poética da estranheza do outro. Não gostava de escadas, e também não gostava muito de andar, era um idoso preso no corpo de um jovem (quê fazia então na passeata?), mas, por algum motivo que ele mesmo não entendia, em seu descaminho ele foi até o terceiro andar, que parecia estar vazio. Não estava, mas pelo menos era só uma pessoa que parecia não ligar muito pra sua existência, ou quando muito, para como ele se apresentava esteticamente.

Copacabana, Cafeteria.

Um estranho no ninho. O rapaz era meio esquisito, ela admitia, mas isso não importava nem um pouco. Foi meio desengonçado para arrastar a cadeira e sentar, ela deu um pequeno sorriso, ele viu. Ela corou. Ele parecia que queria falar mas a voz não saía, ela queria perguntar se ele era da manifestação porque era curiosa. Eles conversaram em silêncio, se olhando de vez em quando, um sorriso aqui, outro ali, mas sem palavras. Ele riu, ela riu também, estavam a algumas mesas de distância, mas nenhum dos dois resolveu sair do lugar, ficaram conversando em silêncio. Ele às vezes olhava pro teto, ela às vezes olhava pro moleskine com a história interminável, mas na verdade olhava de canto de olho e soltava um sorriso meigo por um acontecimento peculiar ter invadido seu terceiro andar de supetão.

Copacabana, Cafeteria.

A menina que estava umas mesas de distância não parecia parecer. Ela não parecia que pertencia a algum lugar, ou a alguma forma, padrão, dava pra olhar, e ele gostava de olhar, de observar, e imaginar. Imaginou uma história pra ela. Talvez ela gostasse de histórias. Ele gostava de histórias. Imaginou que ela talvez fosse a própria imaginação encarnada, logo, um mundo infindável de possibilidades, enquanto ela realmente pudesse ser, e era, porque o realmente pudesse já era uma possibilidade. Não trocou uma palavra com ela, mas se olhavam de vez em quando, um sorriso aqui, outro ali, mas sem palavras. Ela riu, ele riu também, dialogaram em plena quietude. Olhou pro teto para disfarçar, mas na verdade no teto tinha um vidro que refletia o rosto dela, o qual era realmente lindo, e esboçava um sorriso meigo e lindo, de uma boca singela, que parecia querer completar de calor um ambiente ou corpo que carecesse de temperatura.

Copacabana, Cafeteria.

A menina e o menino passaram a ir todos os dias para o terceiro andar da cafeteria, mas sem trocar uma palavra, só olhares e sorrisos. Conheceram muito um do outro no silêncio, só deles, na calada da sociedade, sem ninguém ter conhecimento de que eles dois eram um par num terceiro andar. Depois de muito se conhecerem, uma garçonete que nunca subia lá subiu e pergunta ao rapaz o que ele queria. Ele depois de muito refletir olhando para a menina, pensou que primeiro ele queria uma revolução, mas agora queria café, teria?

A revolução talvez não exista mais, mas a verdadeira revolução, a verdadeira mudança para um estado de paz, tranquilidade, e o resultado para o grito tão sufocado de amor e liberdade, não estavam numa caminhada de lugar nenhum pra nenhum lugar, mas sim sentada escrevendo num moleskine no terceiro andar de uma cafeteria que tinha um ar meio vintage, meio café-cult europeu, numa Avenida em Copacabana.

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