Sobre a Morte

O que é mais difícil de encarar quando se pensa na morte?

Hoje, em 22 anos, é o primeiro aniversário do meu avô em que estamos separados fisicamente. Ele não está mais no plano físico, mas quem sabe em qualquer outro plano eu o encontre um dia. O medo da morte nos faz projetar esse mundo num mundo de ideias, num mundo conceitual, onde por discurso conseguimos vencer nossas falhas e atingir a perfeição. Sim, nesse mundo, eu o encontrarei novamente.

E quando eu o encontrar, ele vai me receber com aquele sorriso de duas dentaduras removíveis, o corpo magro e uma barriga muito saliente. Vai gritar sua risada pra mim e abrir os braços, como sempre fazia quando eu chegava em sua casa e ele estava deitado no sofá assistindo futebol. Talvez ele abrevie palavas como "fio", "poa", "queo i emboa pa minha casa" e derivados, ou talvez fale em seu português carregado de sotaque italiano: "nõ", "limõn", "feijõn", "esta merrrrrda". 

Ele vai estar me esperando com um baralho na mão e um pacote de figurinhas na outra, para que eu possa colecionar um álbum inteiro e recortá-lo em seguida. Vou lhe fazer uma pizza, a qual aprendi a fazer com meu pai, e juntos comeremos uma boa margheritta  assistindo o primeiro volume de "Poderoso Chefão".

Vai andar devagar, arrastando o pé com duas unhas de madeira, seu dedo mindinho da mão esquerda torto e para sempre inconsertável, seus óculos multifocais ancorados num nariz grande como o coliseu, em direção a um abraço magro, característico, com sua careca na altura do meu peito, por ser um homem baixinho. Darei um beijo em sua careca cheia de pintinhas, com um cabelo recém-aparado, crescendo apenas nos lados e atrás. Ele terá tomado um banho (e não um meio-banho, como ele sempre queria, da cintura pra baixo, principalmente nos dias de frio), mas um ótimo banho e estaria perfumado aos montes com seu Kaiak azul. "Tá bicho bom, hein nonno" eu iria lhe dizer.

Ele me levaria de carro pra cima e para baixo, deixaria eu trocar a marcha no câmbio enquanto reclamaria de sua falta de sorte ao querer sair numa rua vazia que de repente inunda-se de carros vindos do chão,

Ele assistiria a RAI comigo, cantaríamos música italiana juntos, comeríamos muito a comida da nonna sentados na mesa da cozinha, levantando o vestido dela e dando um tapa sonoro em sua bunda enquanto ela passa. 

Mas por enquanto eu não posso fazer nada disso com ele de novo. 

O que é mais difícil de encarar quando se pensa na morte?

É que a morte é viva. A morte se vivifica e corporifica numa estrutura sólida chamada "ausência". E dói. A morte faz-se sentir através da não-existência. Ela é um lembrete constante do que não mais é e jamais voltará a sê-lo. A morte dói, porque enquanto ela não é o fim, ela vai matando.

Com um sofá vazio, com uma cama de casal que abriga uma viúva, com o silêncio frio da ausência de seu bom humor, com seus perfumes para sempre presos nos frascos, com as cartas embaralhadas, o filme pausado, a pizza fria e os talheres intactos, ninguém me esperando para me buscar no fim da ladeira do meu colégio e...

O carro no ponto morto.

A morte vive, e isso mata.

All we are is dust in the wind

Shattered little pieces of shit in shitty gathered bones,
The world spins even more fast at every turn,
Politics, relationships, hand-to-hand poison seats
In tongues and minds blastering in colours of hidden colored clouds,
Vanity sins in a sinful way
Hammering scenes in my head every day.
Stupid is who stupid does,
Selfish bastards fighting to survive
With red an black flags on their hands,
Their mouths full, their hearts empty,
All these moments will be lost like tears in the rain.
The sharpest blade spills blood with a rhyme
Than solemn vows of nothing scattered in time
And through the years all must be seen
The changing people with common interest in between.
If I should die before I wake,
Pray no one my soul to take.

Yelling shouts against themselves,
Belting, buckling, tightening up a inch or two,
Punching nothing, asking who
Banging heads in a seat of a bus,
Thus,
Tears are flowing
Mind control,
Burn the ashes,
Ripping gold,
Ups and downs the way goes,
A train ramming in tracks swallows the crowd,
The crowd fears,
The crowd cheers,
The crowd masturbates
The crowd contemplates
Intellectuoises tortoises in
Mundus imundos with fungus among us

The ruin of man it is yet to be see,
When all is equal and every one is one and all,
The space of doubt will prevail,
As the tracks of murder form the trail,
And will be shown to whom it may care,
That the one will live and not the all
In very long spaces or houses small
Wishing Aufklärung, Sie sind,
All we are is dust in the wind.

Amor e Paz ao Iluminado.

Irmão de causa, não te aflijas.
Não desejo o teu mal, não te quero aquilo que é ruim.
Vejo-te imerso numa profunda luz e serenidade,
É o que desejo para ti, que não conheço,
Como desejo para todos,
Como manda nosso credo anarquista.

Acalme teus sentimentos, Iluminado,
Às vezes os caminhos da vida nos levam para lugares diversos.
Alimente-se do amor que tens, Iluminado,
Desse lindo sentimento só há de brotar o bem.
Luz, Iluminado, para eu e você.

Da flor que sentiste o cheiro, não te preocupes,
Ei de regá-la todos os dias com precioso esmo,
E não há de ser isto uma afronta à vossa serenidade,
Apenas um desejo de tranquilidade mútua.
A flor não carece de espinhos,
Não enxergo mal em vossa causa,
Mas os passos que dá em direção à flor machucam o solo,
Sufocam as raízes,
Não porque queres, tenho certeza,
Mas porque a situação assim prevê.

Se preocupa-te com a flor,
Assim como eu,
Evite de forçar o retorno do passado,
Eis que esse solo agora é sensível às passadas,
Mas que não há de existir hostilidade eterna.
É um pedido, daquele que deseja paz,
E te deseja luz, felicidade.

Sei que na tua caminhada penosa,
Irás encontrar uma flor que irá te cativar,
Como no Pequeno Príncipe.

Irmão de causa, Iluminado,
Peço-te que me deixe regar a flor todo dia,
Que me deixe exibir a flor ao sol,
É a minha vez de fazê-lo, rogo,
E que acredite na filosofia vã de um desconhecido,
Um desconhecido que só lhe deseja luz e sossego pr'alma.

Irmão de causa,
Sabeis que não é de guerra que deve viver o nosso mundo,
Não olho para ti com olhos maldosos, nem com desejo de competição,
Não manifesto-me em espaços virtuais sociais pensando no teu mal,
Nem quisera eu manifestar-me em prol de agressões à vossa pessoa,
Porque dentro de minhas convicções desejo-te o bem,
Como desejo-te a vitória, a felicidade.

Só te peço paz, irmão Iluminado,
Que desta vida só se levam os sorrisos.
Acalente seu espírito de forma que as pétalas da flor não caiam,
Pois não é bela, a mais bela flor?
Sei que concordas comigo, mantemo-la, pois, assim?
Aniquilo-me aqui, a morte do ego,
E nutro esperanças de que faça o mesmo,
Não por este que vos fala,
Mas pelo bem sumo da flor,
Pois sei que é isso que desejas também,
Para que da flor não se esvaiam mais pétalas.

Iluminado,
A simplicidade do verbo que contém o desejo mais sublime, sussurra-te:
Paz.

Vincius Giglio Uzêda.

(Nota: Não resigno-me à ignorância e à hostilidade, somos seres de uma sociedade civilizada, sinta-se livre para responder via comentário, a palavra de um libertário tal qual você, assegura-te que não serei descortês.)

Café, Teria?

Copacabana.

Uma menina sai de um lugar que é um refúgio de silêncio no meio da violência sonora urbana do dia-a-dia. Ela andava até a Cafeteria que tinha um ar meio vintage, meio café-cult europeu e era perto de seu refúgio silencioso, numa avenida movimentada. Seu óculos quadrangular e cabelo comprido montavam uma aparência que não respondia ao tempo presente, acompanhados por sua sapatilha negra brilhante, enquanto um jeans parcialmente vinho com uma camisa preta estampando uma caveira em lantejoulas prateadas traziam a imagem do corpo de volta para nosso ano. Ela se sentava numa mesinha de canto do terceiro andar, onde ninguém reparava nela porque ninguém subia até o terceiro andar, mas ela reparava em todo mundo. Escrevia histórias, muitas histórias. Se ali também fosse um refúgio de silêncio, ouviria-se o som da furiosa dança da caneta no papel amarelado de seu moleskine. Os olhos moviam-se por trás da lente, pra lá e pra cá, e a caneta ia pra cá e pra lá, as pernas cruzadas, e o sorriso meigo da boca pequena surgia sempre que uma boa história montava-se no papel.

Urca.

Um menino sai em direção à Copacabana. Haveria um protesto pelos direitos de ser um cidadão livre, por ser um cidadão com direito de amar, e por um estado, não um Estado, de paz. Era uma época de revoltas e insatisfações populares. O menino ia, mas não sabia ainda muito bem o motivo, só sabia que queria ser ouvido por alguém. Que fossem gritos de revolta então. Mas revolta contra o quê? Ele não sabia ao certo, com o que era a revolta, mas se sentia oprimido pelo mundo e pelas pessoas, precisava ser ouvido. O tintilar dos metais e correntes presos às suas vestes que rugiam com seu andar apressado e bruto era massacrado pela vibração perturbadora que é a música urbana. O pé de coturno conversava com o outro num ''tudunc-tudunc'' cada vez que atingia o chão, e os dois estavam levando o rapaz pra onde os gritos ficavam mais alto, perto de uma cafeteria numa avenida movimentada em Copacabana.

Copacabana, Cafeteria.

A menina franze o cenho. A caneta em seu papel é interrompida e ali termina uma história sem fim que não seria mais retomada, por um som pungentemente crescente de uma massa eufórica que aproxima-se da cafeteria, caminhando na rua. Os gritos eufóricos são distintos, mas terminam todos em sua origem: Vontade de liberdade com uma marcha sonora e contínua. Milhares de mãos em punho cerrado rasgam o cenário urbano atipicamente, pois onde deveria haver uma chuva de luzes vermelhas dos faróis dos carros parados num trânsito sem fim, há um aglomerado insatisfeito e lutando. Ela não queria sair dali, mas ela também queria ver o que estava acontecendo. Ela não estava marchando, mas a alma dela entoava o coro insatisfeito várias e várias vezes dentro de si, e os olhos fechados depositavam a esperança naquela forma de manifestação. Ela manifestava-se de outras formas, cada indivíduo com a sua, mas continuava observando, agora já sem concentração para continuar rabiscando seu moleskine. Os outros espectadores que também pareciam pertencer ao local, assistam sentados a marcha, era um filme numa tela gigante do cinema da realidade, mas uma figura, uma forma não-pertencente ao local, irrompe na estética inusitada, mas a menina só perceberia tempos depois.

Copacabana, Avenida.

O menino andava na Avenina, com a multidão que se aglomerava e acalorava de uma histeria coletiva pelo livre no ápice do momento, onde todos pareciam ter uma certeza convicta da razão do grito, da enunciação do discurso, do volume explosivo da voz, menos ele, que tinha tudo isso, mas sem uma certeza cega. Nunca fora de confiar muito em certezas cegas, mas confiava no acaso. Bandeiras com signos e siglas e símbolos e sábios e sinos e santos dos sábados, que não faziam o menor sentido para ele onde quer que ele olhasse. Num descaminho, ele avistou uma cafeteria, e uma súbita vontade de tomar um café antes da revolução abateu-se sobre ele. Porque não? Entrou no lugar, onde muitos olhavam pra ele por ser muito diferente, por ser alto, por ser expansivo e desajeitado, já na entrada chutando a placa de "seja bem vindo" e derrubando uma cadeira. Era uma cafeteria mas muitas coisas estavam riscadas da placa com os preços dos produtos, pendurada em cima do caixa, tendo logo em seguida um adesivo de "em falta". Era uma cafeteria que tinha um ar meio vintage, meio café-cult europeu, mas e um café, teria?

Copacabana, Cafeteria.

O menino pediu um café, porque isso ainda tinha pelo menos, enquanto ela estava ainda perplexa com toda a agitação, pois aquele lugar sempre fora calmo o suficiente, com um silêncio equivalente à madrugada, onde suas histórias sempre tiveram um fim ali. O barulho a incomodava, não porque era barulhento, mas porque também era barulhento e de alguma forma roubava suas ideias e deixava suas frases sem vírgula ou ponto final. Ouvia passos aproximando-se, o que estranhou mais ainda, ninguém sequer cogitava subir as escadas até o terceiro andar, era seu andar. Quem é que teria a petulância de entrar em seu andar?

Copacabana, Cafeteria.

Depois que a garçonete muito simpática trouxe o café fervendo, o menino ficou incomodado de ser olhado por todo mundo sabendo que todos os olhos formulavam opiniões, e todas as opiniões formuladas pelos olhos eram tão simpáticas quanto os olhos de sobrancelhas rígidas em convergência poética da estranheza do outro. Não gostava de escadas, e também não gostava muito de andar, era um idoso preso no corpo de um jovem (quê fazia então na passeata?), mas, por algum motivo que ele mesmo não entendia, em seu descaminho ele foi até o terceiro andar, que parecia estar vazio. Não estava, mas pelo menos era só uma pessoa que parecia não ligar muito pra sua existência, ou quando muito, para como ele se apresentava esteticamente.

Copacabana, Cafeteria.

Um estranho no ninho. O rapaz era meio esquisito, ela admitia, mas isso não importava nem um pouco. Foi meio desengonçado para arrastar a cadeira e sentar, ela deu um pequeno sorriso, ele viu. Ela corou. Ele parecia que queria falar mas a voz não saía, ela queria perguntar se ele era da manifestação porque era curiosa. Eles conversaram em silêncio, se olhando de vez em quando, um sorriso aqui, outro ali, mas sem palavras. Ele riu, ela riu também, estavam a algumas mesas de distância, mas nenhum dos dois resolveu sair do lugar, ficaram conversando em silêncio. Ele às vezes olhava pro teto, ela às vezes olhava pro moleskine com a história interminável, mas na verdade olhava de canto de olho e soltava um sorriso meigo por um acontecimento peculiar ter invadido seu terceiro andar de supetão.

Copacabana, Cafeteria.

A menina que estava umas mesas de distância não parecia parecer. Ela não parecia que pertencia a algum lugar, ou a alguma forma, padrão, dava pra olhar, e ele gostava de olhar, de observar, e imaginar. Imaginou uma história pra ela. Talvez ela gostasse de histórias. Ele gostava de histórias. Imaginou que ela talvez fosse a própria imaginação encarnada, logo, um mundo infindável de possibilidades, enquanto ela realmente pudesse ser, e era, porque o realmente pudesse já era uma possibilidade. Não trocou uma palavra com ela, mas se olhavam de vez em quando, um sorriso aqui, outro ali, mas sem palavras. Ela riu, ele riu também, dialogaram em plena quietude. Olhou pro teto para disfarçar, mas na verdade no teto tinha um vidro que refletia o rosto dela, o qual era realmente lindo, e esboçava um sorriso meigo e lindo, de uma boca singela, que parecia querer completar de calor um ambiente ou corpo que carecesse de temperatura.

Copacabana, Cafeteria.

A menina e o menino passaram a ir todos os dias para o terceiro andar da cafeteria, mas sem trocar uma palavra, só olhares e sorrisos. Conheceram muito um do outro no silêncio, só deles, na calada da sociedade, sem ninguém ter conhecimento de que eles dois eram um par num terceiro andar. Depois de muito se conhecerem, uma garçonete que nunca subia lá subiu e pergunta ao rapaz o que ele queria. Ele depois de muito refletir olhando para a menina, pensou que primeiro ele queria uma revolução, mas agora queria café, teria?

A revolução talvez não exista mais, mas a verdadeira revolução, a verdadeira mudança para um estado de paz, tranquilidade, e o resultado para o grito tão sufocado de amor e liberdade, não estavam numa caminhada de lugar nenhum pra nenhum lugar, mas sim sentada escrevendo num moleskine no terceiro andar de uma cafeteria que tinha um ar meio vintage, meio café-cult europeu, numa Avenida em Copacabana.

Os Normais Não Me Representam.

Viva a auto-afirmação da anormalidade!
Porque se for para viver num mundo sem cores,
De incrível e engessada formalidade,
Prefiro os caminhos todos tortos e algumas dores.

Celebremos a diferença!
Celebremos os olhares tortos,
A descrença,
A não-aceitação por não ser tão banal quanto eles.

Celebremos então o verdadeiro amor!
Só quem enxerga com olhos desvendados,
Experimenta o calor,
De suspiros e corpos entrelaçados.

Viva a estranheza,
Que num mundo de iguais,
Supere a esperteza,
De sermos felizes sendo banais.

Viva o ócio,
Viva o tédio,
Um viva para tudo o que viva,
E que pulse,
E que pense,
Que grite,
Que cale,
Que grite mais uma vez,
E silencie,
E pulse,
E tenha o vermelho do sangue correndo com pressa pra lá e pra cá.

Não sou daqueles que desistem, estou junto com os que tentam,
Viva a anormalidade, os normais não me representam.

Isso é Para Nóia.

Escrevo uma carta para Nóia,
Pedindo que ela me deixe em paz,
Mas a Nóia me persegue,
Já disse para Nóia que fique lá pra trás,

Um canto de olho e a Nóia lá está,
Uma palavra fora de hora e a Nóia vem reclamar,
Já disse para Nóia que não seja minha sombra,
O canto da Nóia no pé do meu ouvido me assombra.

Pára Nóia, pára,
Assim eu não me aguento,
Pára Nóia, pára,
Pra todo espaço da alma que olho há lamento.

Até a Nóia tá presa na espiral da paranoia,
Nóia, ponha-se no teu caminho,
Já disse para Nóia,
Não ponha meu sossego em desalinho.

Nóia, não coloque sua mão fria em minha medula,
O gelado do temor, digo para Nóia, me anula,
E a vontade de não sair da mesma posição,
Eu digo para Nóia, é apenas falta de disposição. (Não)

O medo do processo constante de ter medo,
E de ter medo de ter medo não faz,
Já disse para Nóia,
Acho que não serei capaz.

Em todos os cantos dos cantos a Nóia sossega,
Em todas as vitrines, cabines,
Espaços vazios da mente,
A Nóia escorrega.

O soco do inesperado e o pânico do desconhecido,
Já disse para Nóia, doem.
As pernas bambas que não irão me sustentar,
Nos joelhos, elas caem.

Pára Nóia, pára.
Estou tão perdido dentro de um aquário encarnado em peixe,
Pára Nóia, não precisa ir,
Não quero ficar sozinho, não me deixe.

Conheci Um Morango, Quase Sem Querer.

Conheci um morango. Não daqueles misturados entre outros morangos numa caixa qualquer em uma feira de domingo. Nem daqueles morangos que parecem-se com outros morangos e são outros morangos por serem iguais aos outros morangos, não. Esse morango é exuberante, novo, mas que repousa suave e confortável num espaço seu, sem invadir o dos outros. Até que alguém abusado vem e tira o morango de seu suave sossego realmente quase sem querer. Nesse meu fascínio pelo novo e histórias novas que se recontam, achei um morango que queria conversar, e queria ser ouvido, mas sem dizer nada.

Ué...

Acontece que dialoguei com ela sem muita conversa, afinal, era um morango que eu reconhecia a existência, mas ainda não tinha estabelecido contato. Conversamos em descaminhos. Eu ia pegar o ônibus da minha faculdade, mas resolvi de súbito ir de metrô. Ela ia pegar o 107, mas o tempo não a deixou esperar e também foi de metrô. Descaminhos que conversaram, embora em seus escritos o morango já tivesse conversado comigo. Eu lia, relia, fazia perguntas, e ela me respondia, ali, entre uma palavra e outra, naquele espaço em branco. Mas e isso, o que é isso que faço agora? É uma grande formulação de opinião sobre um morango? Não, longe disso. É uma brincadeira de contar histórias, brincando de adivinhar as entrelinhas de histórias de um morango que esbarrou na minha história. Gosto de contar histórias. Gosto também de ouvir histórias e contos dos outros, mas aqui falo do morango. Além, falo do que tentei adivinhar do que o morango disse, não-dizendo, na poesia do silêncio. Digo um morango, no indefinido, porque acho chato, e me parece que o morango também não é muito favorável à formas pré-estabelecidas, limites. Deixo indefinido então a existência do morango que pode ser tudo o que o morango quiser, na beleza de uma liberdade jamais pré-estabelecida e sempre mutável. Aliás, parece que o morango gosta de ser sempre uma coisa nova, e não ser sempre a mesma coisa, dentro de uma linguagem que me é familiar e palatável, mares que consigo navegar com tranquilidade.

O morango expressa uma nítida vontade de conhecer-se. Afirmações metralhadas no infinito de como ser e o que gostar, é possível observar e entender, que o morango tenta se reconhecer sem conhecer uma forma que realmente a defina de verdade em suas palavras, que repetem-se. Solidão, medo de estar só (e o que e é estar verdadeiramente só?) ou medo de não achar o outro que lhe dê sentido? Tenho medo de estar só. O meu eu é a crise freudiana, precisa completar-se num outro. Pode não ter nada a ver, entretanto consigo me reler aí. Talvez isso seja o tipo ideal kantiano, que não exista de fato, embora sirva para nos manter em movimento e sempre ir para algum lugar. Só que andar cansa, não é?

Nos versos que conversam há sempre o diálogo do morango com um outro eu. Logicamente, pelo tempo, não é provável que seja o mesmo eu, mas sempre um eu que não-corresponde onde talvez o morango queira encaixar um pedaço de si num pedaço de um outro si, o que é bem legal, costurar os retalhos de histórias desconexas e montar a tela de um quadro em branco, um espaço de possibilidades. Silêncio e poesia, são suas formas de ver o mundo, e a fugacidade intensa, sua forma de experimentá-lo. Não o efêmero, aquele amontoado de segundos sem nexo causal, que as pessoas buscam como forma de contento pessoal, não, mas o fugaz, o reconhecimento de que o tempo vai continuar correndo e que as coisas passam, até mesmo o próprio morango passa dando aberturas para que o morango tenha novas formas. Mas até quando será um morango?

O morango fala muito de amor e de tristeza. E porque não falar? Toda vez que se conta uma história é impossível contar da forma como outrora fora contada, então toda vez que ela enuncia uma nova palavra, ela enuncia uma nova opinião de um novo ponto de vista. Uma mutabilidade declarada, anti-platônica por excelência, do ser imutável e as virtudes que são sempre a mesma coisa. Não me parece que o morango necessite sentir-se como a erudição encarnada, pois a simplicidade das coisas parece lhe aprazer, dentro de emoções e sentimentos viscerais, crus, brutos, em sua essência, seu cerne, de forma a atingir o âmago, intensamente, numa intensidade que quer se fazer presente e sentida. Tudo isso está onde ela não diz alguma coisa, onde o morango não escreve, mas deixa ali, pra que alguém leia.

Curioso também a constante presença de abraços. Gosto muito de abraços, a sensação é maravilhosa, tão logo, concordo com o morango, que parece gostar de abraços tão bons, que completam e dotam a existência em si, de sentido, do eu, com um outro e não em si mesmo, sendo o ato primeiro de dividir afeto. Nada de egoísmo, não, a não ser quando trata-se de uma coca bem gelada, aí dá briga, como provavelmente daria com alguém que fale mal de The Smiths. Gosto de The Smiths, e U2, e Legião Urbana, muito mesmo, principalmente o último. O morango em suas assertivas deixa muito claro suas intencionalidades, deixa transparecer o que quer, e mostra que sabe o que quer, até certo ponto, porque a dúvida é sempre saber o que querer.

A vida e as ações humanas me atraem, parafraseando o morango. Fico assim, misturando a vida com a poesia, a palavra como alimento do espírito, as histórias como vidas em si, sendo uma lojinha velha num canto de rua, que vê as pessoas passarem e vez ou outra pararem pra ver o que eu tenho pra oferecer. Se for pra julgar alguém, julgo-me como feliz, de ter podido contar essa história, e agradeço, ao lindo morango, por na leitura de seus escritos ter me relido.

Mas é esse o fim da história? Não.

Essa brincadeira de adivinhação, é só a superfície.

Sobre Domingos.

Um texto tão lento como esse fatídico dia. Mas não um texto ruim.

Não.

Por que relegar infelicidade e tristeza ao dia? Que seja um dia de uma preguiça solene e feliz.

Que seja o dia de acordar tarde, ou acordar cedo. De olhar na janela e ver o mundo, de cheirar e experimentar com os olhos, a urbanidade cortada ora aqui, outra ali, por uma árvore.

Nada de roupa. Declaro o dia oficial do pijama! 

Aquele chinelo bem velho se o chão estiver frio (e é bem legal quando está), uma ceroula samba-canção muito larga, com o tecido puído de tantas lavagens, o elástico que já não puxa mais, bem confortável. Uma camisa de meia-manga com um furo num lugar aparentemente irrelevante. Cabelos despenteados, barba bagunçada, e o bocejo constante. Passos lentos, seja para qual cômodo da casa for, afinal, é domingo, e no domingo é dia de não sair de casa.

Café-da-manhã, já que agora você tem tempo. O que vai querer?

Pão, frios, ovo mexido, um leite com achocolatado (tentando fingir imparcialidade na marca, quando todos sabemos que Nescau ganha de tudo), manteiga, vez ou outra uma vitamina, quando a paciência de ligar o liquidificador para bater tudo aparece.

Voltar pra cama e ver TV? Sim, por favor.

Se arrastar entre os lençóis pra lembrar que hoje o tempo não é o seu senhor, e que você pode sim deitar a cabeça de novo no travesseiro sem culpa, com aquele sorriso meio-aberto e os olhos meio-fechados.

Um filme, um seriado, enquanto o almoço não sai... A comida tarda, é apenas mais um domingo.

Ler um pouco ou jogar um pouco. Talvez sentar no computador e ver o que o mundo tem pra te dizer hoje. A maioria das pessoas te acompanha na preguiça coletiva, é visível, mas gosto muito de falar.

Um filme durante e após a refeição, para digerir o alimento que geralmente meu pai compra na feira local quando o mesmo faz o almoço. É um domingo.

As cenas levam o tempo embora, e já é final de tarde. Gosto tanto quando posso ficar sentado na poltrona e está frio o suficiente para me cobrir com uma colcha velha de estimação, repousando imóvel e quieto. A semana inteira o barulho do mundo mantém as pessoas em constante atividade. Não. Domingo é o dia do meu silêncio, para mim, para você, dia do silêncio de cada um. Domingo é dia nenhum que você pode chamar de seu.

Acaba o filme, apago a televisão e ouço a chuva bater na janela. Domingo é o dia de eu falar calado pra ninguém ouvir e de conversar com a natureza (que está em falta nesses dias tão cinzentos). É hora do banho.

Um banho quente, para arrepiar a pele e não dar vontade de sair do box, e já correr de volta para os pijamas velhos e macios que esperam sossegados em cima do colchão. Cantar no chuveiro os punks mais nervosos e esboçar pequenas danças acanhadas pelo medo do sabão no chão. Toalha grande e macia, desodorante, despenteado, um beijo para o esquisitão que fica me olhando do outro lado do espelho. É apenas mais um domingo.

Esperar a pizza, ou um lanche. Nada de dieta ou rigor qualquer. Domingo é domingo.

Comer enquanto ouço música e jogo, ou vejo televisão. Nada melhor que mais uns rocks malucos e uma coca-cola. Comum. Hoje não é dia de se privar de nada. Hoje é dia de ser, e ser, tudo aquilo que é, sem coerção própria.

O dia se aproxima do fim, e a preguiça faz seu rumo de volta pra cama. Já que o dia acabou, revivo toda a preguiça de novo na minha cabeça, porque não? Afinal, é um domingo, e domingo é meu dia.

Um Jazz ou Blues pra relaxar. Dave Brubeck ou Chet Baker? Deixa o aleatório decidir pra mim. Nas horas finais do cansaço, técnicas de meditação pré-sono. Um pouco de filosofia oriental do relaxamento faz muito bem, descobri.

Estudos recentes comprovam que quem vive os seus domingos fazendo de seu domingo, seu, vive mais (feliz).

Fontes?

Não. Hoje é domingo.