Os Normais Não Me Representam.

Viva a auto-afirmação da anormalidade!
Porque se for para viver num mundo sem cores,
De incrível e engessada formalidade,
Prefiro os caminhos todos tortos e algumas dores.

Celebremos a diferença!
Celebremos os olhares tortos,
A descrença,
A não-aceitação por não ser tão banal quanto eles.

Celebremos então o verdadeiro amor!
Só quem enxerga com olhos desvendados,
Experimenta o calor,
De suspiros e corpos entrelaçados.

Viva a estranheza,
Que num mundo de iguais,
Supere a esperteza,
De sermos felizes sendo banais.

Viva o ócio,
Viva o tédio,
Um viva para tudo o que viva,
E que pulse,
E que pense,
Que grite,
Que cale,
Que grite mais uma vez,
E silencie,
E pulse,
E tenha o vermelho do sangue correndo com pressa pra lá e pra cá.

Não sou daqueles que desistem, estou junto com os que tentam,
Viva a anormalidade, os normais não me representam.

Isso é Para Nóia.

Escrevo uma carta para Nóia,
Pedindo que ela me deixe em paz,
Mas a Nóia me persegue,
Já disse para Nóia que fique lá pra trás,

Um canto de olho e a Nóia lá está,
Uma palavra fora de hora e a Nóia vem reclamar,
Já disse para Nóia que não seja minha sombra,
O canto da Nóia no pé do meu ouvido me assombra.

Pára Nóia, pára,
Assim eu não me aguento,
Pára Nóia, pára,
Pra todo espaço da alma que olho há lamento.

Até a Nóia tá presa na espiral da paranoia,
Nóia, ponha-se no teu caminho,
Já disse para Nóia,
Não ponha meu sossego em desalinho.

Nóia, não coloque sua mão fria em minha medula,
O gelado do temor, digo para Nóia, me anula,
E a vontade de não sair da mesma posição,
Eu digo para Nóia, é apenas falta de disposição. (Não)

O medo do processo constante de ter medo,
E de ter medo de ter medo não faz,
Já disse para Nóia,
Acho que não serei capaz.

Em todos os cantos dos cantos a Nóia sossega,
Em todas as vitrines, cabines,
Espaços vazios da mente,
A Nóia escorrega.

O soco do inesperado e o pânico do desconhecido,
Já disse para Nóia, doem.
As pernas bambas que não irão me sustentar,
Nos joelhos, elas caem.

Pára Nóia, pára.
Estou tão perdido dentro de um aquário encarnado em peixe,
Pára Nóia, não precisa ir,
Não quero ficar sozinho, não me deixe.

Conheci Um Morango, Quase Sem Querer.

Conheci um morango. Não daqueles misturados entre outros morangos numa caixa qualquer em uma feira de domingo. Nem daqueles morangos que parecem-se com outros morangos e são outros morangos por serem iguais aos outros morangos, não. Esse morango é exuberante, novo, mas que repousa suave e confortável num espaço seu, sem invadir o dos outros. Até que alguém abusado vem e tira o morango de seu suave sossego realmente quase sem querer. Nesse meu fascínio pelo novo e histórias novas que se recontam, achei um morango que queria conversar, e queria ser ouvido, mas sem dizer nada.

Ué...

Acontece que dialoguei com ela sem muita conversa, afinal, era um morango que eu reconhecia a existência, mas ainda não tinha estabelecido contato. Conversamos em descaminhos. Eu ia pegar o ônibus da minha faculdade, mas resolvi de súbito ir de metrô. Ela ia pegar o 107, mas o tempo não a deixou esperar e também foi de metrô. Descaminhos que conversaram, embora em seus escritos o morango já tivesse conversado comigo. Eu lia, relia, fazia perguntas, e ela me respondia, ali, entre uma palavra e outra, naquele espaço em branco. Mas e isso, o que é isso que faço agora? É uma grande formulação de opinião sobre um morango? Não, longe disso. É uma brincadeira de contar histórias, brincando de adivinhar as entrelinhas de histórias de um morango que esbarrou na minha história. Gosto de contar histórias. Gosto também de ouvir histórias e contos dos outros, mas aqui falo do morango. Além, falo do que tentei adivinhar do que o morango disse, não-dizendo, na poesia do silêncio. Digo um morango, no indefinido, porque acho chato, e me parece que o morango também não é muito favorável à formas pré-estabelecidas, limites. Deixo indefinido então a existência do morango que pode ser tudo o que o morango quiser, na beleza de uma liberdade jamais pré-estabelecida e sempre mutável. Aliás, parece que o morango gosta de ser sempre uma coisa nova, e não ser sempre a mesma coisa, dentro de uma linguagem que me é familiar e palatável, mares que consigo navegar com tranquilidade.

O morango expressa uma nítida vontade de conhecer-se. Afirmações metralhadas no infinito de como ser e o que gostar, é possível observar e entender, que o morango tenta se reconhecer sem conhecer uma forma que realmente a defina de verdade em suas palavras, que repetem-se. Solidão, medo de estar só (e o que e é estar verdadeiramente só?) ou medo de não achar o outro que lhe dê sentido? Tenho medo de estar só. O meu eu é a crise freudiana, precisa completar-se num outro. Pode não ter nada a ver, entretanto consigo me reler aí. Talvez isso seja o tipo ideal kantiano, que não exista de fato, embora sirva para nos manter em movimento e sempre ir para algum lugar. Só que andar cansa, não é?

Nos versos que conversam há sempre o diálogo do morango com um outro eu. Logicamente, pelo tempo, não é provável que seja o mesmo eu, mas sempre um eu que não-corresponde onde talvez o morango queira encaixar um pedaço de si num pedaço de um outro si, o que é bem legal, costurar os retalhos de histórias desconexas e montar a tela de um quadro em branco, um espaço de possibilidades. Silêncio e poesia, são suas formas de ver o mundo, e a fugacidade intensa, sua forma de experimentá-lo. Não o efêmero, aquele amontoado de segundos sem nexo causal, que as pessoas buscam como forma de contento pessoal, não, mas o fugaz, o reconhecimento de que o tempo vai continuar correndo e que as coisas passam, até mesmo o próprio morango passa dando aberturas para que o morango tenha novas formas. Mas até quando será um morango?

O morango fala muito de amor e de tristeza. E porque não falar? Toda vez que se conta uma história é impossível contar da forma como outrora fora contada, então toda vez que ela enuncia uma nova palavra, ela enuncia uma nova opinião de um novo ponto de vista. Uma mutabilidade declarada, anti-platônica por excelência, do ser imutável e as virtudes que são sempre a mesma coisa. Não me parece que o morango necessite sentir-se como a erudição encarnada, pois a simplicidade das coisas parece lhe aprazer, dentro de emoções e sentimentos viscerais, crus, brutos, em sua essência, seu cerne, de forma a atingir o âmago, intensamente, numa intensidade que quer se fazer presente e sentida. Tudo isso está onde ela não diz alguma coisa, onde o morango não escreve, mas deixa ali, pra que alguém leia.

Curioso também a constante presença de abraços. Gosto muito de abraços, a sensação é maravilhosa, tão logo, concordo com o morango, que parece gostar de abraços tão bons, que completam e dotam a existência em si, de sentido, do eu, com um outro e não em si mesmo, sendo o ato primeiro de dividir afeto. Nada de egoísmo, não, a não ser quando trata-se de uma coca bem gelada, aí dá briga, como provavelmente daria com alguém que fale mal de The Smiths. Gosto de The Smiths, e U2, e Legião Urbana, muito mesmo, principalmente o último. O morango em suas assertivas deixa muito claro suas intencionalidades, deixa transparecer o que quer, e mostra que sabe o que quer, até certo ponto, porque a dúvida é sempre saber o que querer.

A vida e as ações humanas me atraem, parafraseando o morango. Fico assim, misturando a vida com a poesia, a palavra como alimento do espírito, as histórias como vidas em si, sendo uma lojinha velha num canto de rua, que vê as pessoas passarem e vez ou outra pararem pra ver o que eu tenho pra oferecer. Se for pra julgar alguém, julgo-me como feliz, de ter podido contar essa história, e agradeço, ao lindo morango, por na leitura de seus escritos ter me relido.

Mas é esse o fim da história? Não.

Essa brincadeira de adivinhação, é só a superfície.

Sobre Domingos.

Um texto tão lento como esse fatídico dia. Mas não um texto ruim.

Não.

Por que relegar infelicidade e tristeza ao dia? Que seja um dia de uma preguiça solene e feliz.

Que seja o dia de acordar tarde, ou acordar cedo. De olhar na janela e ver o mundo, de cheirar e experimentar com os olhos, a urbanidade cortada ora aqui, outra ali, por uma árvore.

Nada de roupa. Declaro o dia oficial do pijama! 

Aquele chinelo bem velho se o chão estiver frio (e é bem legal quando está), uma ceroula samba-canção muito larga, com o tecido puído de tantas lavagens, o elástico que já não puxa mais, bem confortável. Uma camisa de meia-manga com um furo num lugar aparentemente irrelevante. Cabelos despenteados, barba bagunçada, e o bocejo constante. Passos lentos, seja para qual cômodo da casa for, afinal, é domingo, e no domingo é dia de não sair de casa.

Café-da-manhã, já que agora você tem tempo. O que vai querer?

Pão, frios, ovo mexido, um leite com achocolatado (tentando fingir imparcialidade na marca, quando todos sabemos que Nescau ganha de tudo), manteiga, vez ou outra uma vitamina, quando a paciência de ligar o liquidificador para bater tudo aparece.

Voltar pra cama e ver TV? Sim, por favor.

Se arrastar entre os lençóis pra lembrar que hoje o tempo não é o seu senhor, e que você pode sim deitar a cabeça de novo no travesseiro sem culpa, com aquele sorriso meio-aberto e os olhos meio-fechados.

Um filme, um seriado, enquanto o almoço não sai... A comida tarda, é apenas mais um domingo.

Ler um pouco ou jogar um pouco. Talvez sentar no computador e ver o que o mundo tem pra te dizer hoje. A maioria das pessoas te acompanha na preguiça coletiva, é visível, mas gosto muito de falar.

Um filme durante e após a refeição, para digerir o alimento que geralmente meu pai compra na feira local quando o mesmo faz o almoço. É um domingo.

As cenas levam o tempo embora, e já é final de tarde. Gosto tanto quando posso ficar sentado na poltrona e está frio o suficiente para me cobrir com uma colcha velha de estimação, repousando imóvel e quieto. A semana inteira o barulho do mundo mantém as pessoas em constante atividade. Não. Domingo é o dia do meu silêncio, para mim, para você, dia do silêncio de cada um. Domingo é dia nenhum que você pode chamar de seu.

Acaba o filme, apago a televisão e ouço a chuva bater na janela. Domingo é o dia de eu falar calado pra ninguém ouvir e de conversar com a natureza (que está em falta nesses dias tão cinzentos). É hora do banho.

Um banho quente, para arrepiar a pele e não dar vontade de sair do box, e já correr de volta para os pijamas velhos e macios que esperam sossegados em cima do colchão. Cantar no chuveiro os punks mais nervosos e esboçar pequenas danças acanhadas pelo medo do sabão no chão. Toalha grande e macia, desodorante, despenteado, um beijo para o esquisitão que fica me olhando do outro lado do espelho. É apenas mais um domingo.

Esperar a pizza, ou um lanche. Nada de dieta ou rigor qualquer. Domingo é domingo.

Comer enquanto ouço música e jogo, ou vejo televisão. Nada melhor que mais uns rocks malucos e uma coca-cola. Comum. Hoje não é dia de se privar de nada. Hoje é dia de ser, e ser, tudo aquilo que é, sem coerção própria.

O dia se aproxima do fim, e a preguiça faz seu rumo de volta pra cama. Já que o dia acabou, revivo toda a preguiça de novo na minha cabeça, porque não? Afinal, é um domingo, e domingo é meu dia.

Um Jazz ou Blues pra relaxar. Dave Brubeck ou Chet Baker? Deixa o aleatório decidir pra mim. Nas horas finais do cansaço, técnicas de meditação pré-sono. Um pouco de filosofia oriental do relaxamento faz muito bem, descobri.

Estudos recentes comprovam que quem vive os seus domingos fazendo de seu domingo, seu, vive mais (feliz).

Fontes?

Não. Hoje é domingo.