"Não.
Você nunca me verá pedir perdão.
Você também nunca me verá desculpar alguém. Você nunca me verá abaixar a cabeça, pra quem quer que seja, pois pra mim, o resto dos seres humanos são simplesmente um bando de vermes que lutam uns com os outros para poder decidir quem morre primeiro.
Você também nunca verá eu me converter para alguma ideia, eu me modificar porque irá fazer outrem feliz (a não ser que seja uma modificação induzida, ou seja, para conseguir o que eu quero, de alguém. O que no meu caso, nem preciso é.), eu ceder por algum ponto de vista, ou uma opinião diferente, eu considerar quaisquer argumentos advindos de outros se não de mim, eu pensar em outra coisa a não ser em mim, e eu absolutamente não lutar até o final pelos meus ideais, convicto de que eles certamente são melhores que os seus. E sou completamente arredio, com meu ego nas alturas. Também, sou tão maior do que você, e faço questão de jogar isso na sua cara sempre que puder.
MUITO CUIDADO para não me ferir. Você não sabe do que eu sou capaz quando alguém tem a ousadia de tentar, e a ínfima possibilidade realizada de conseguir, me machucar. Quando sou ferido, jamais dou trégua. Levo a batalha até o final, até que cada mínimo pedaço do meu oponente seja estraçalhado, queimado, e jogado no vento. Se isso não acontece, pelo menos o desejo de que aconteça é vivo. É palpável até, de tão denso que é. Mas, vamos direto ao que interessa.
Ele estava me chamando. Eu não teria atendido ao chamado deste pirralho mimado, você sabe como eu sou, mas, ele me disse que tinha grandes planos. Disse que ia fazer algo tão grandioso, e que fosse render um entretenimento à longo prazo tão grande que... Bom, estou curioso demais para poder não descobrir o que este moleque está querendo aprontar.
Me levantei então da minha confortável e magnífica poltrona, diante da minha mesa maravilhosa e organizada. Afinal, você vê, sou um homem de negócios. Desci do meu escritório, fui até meu closet, pus meu terno mais caro, pois como você deve imaginar ela estaria lá, e ser elogiado sempre me faz bem. Segui então até a bancada, onde peguei meu celular, pois não ia deixar de realizar meus negócios só por causa do chamado daquele pirralho mimado. Peguei meu anel, de ouro maciço, cravado com pequenos diamantes formando a inicial do meu nome. Essa era a primeira das duas relíquias necessárias para que eu fosse reconhecido por todos, e então, para que todos me mostrassem o devido respeito. A segunda, já estava indo rumo à ela.
Saí da minha luxuosa mansão, que de tão linda agredia a vista de quem passasse por lá. Fui até a garagem, e vi a minha segunda relíquia olhando pra mim. Meu lindo e único Plymouth Barracuda 1970. Ele brilhava de forma impecável, sempre lustrado, num verde vivo e forte, detalhado com um preto brilhoso. Seus bancos de couro foram feitos sob medida de acordo com meu gosto. Heavy Metal é um quesito obrigatório, para mim, e para todos os outros imperdoáveis, que você fique sabendo disso. Mas o som mais lindo que podia existir, era o ronco do seu motor V12, totalmente envenenado e sob medida para meu lindo Barracuda.
Entrei no meu carro, e como de costume, aproveitei o sabor do bom cheio que exalava de cada canto daquele carro antes de mais nada. Dei a partida, e o motor rugia de forma padronizada, e calma. Acelerei o mais suave que pude, e como de costume, o carro voou pra fora da garagem. Você vê, em carros normais, a velocidade é de 10 em 10 quilômetros por hora. No carro dos imperdoáveis não. No carro dos imperdoáveis, a velocidade é de 100 em 100 quilômetros por hora. Por mais distante que a casa daquele imbecilzinho fosse, ou por mais perto que ela pudesse estar, eu preferi andar de carro o quanto mais eu pude, e chegar bem em cima da hora. Foi o que fiz.
Chegando lá, deixei meu carro em seu jardim, e fui até seu encontro. Por mais em cima da hora que pude chegar, fui o primeiro. Pensando melhor, acho que isso pode ter sido uma grande ironia. Lá ele estava, sentado em sua poltrona gigante. Levantou e veio até meu encontro.
"Seja bem-vindo", ele me disse. "Os outros chegarão em alguns instantes. Você foi o primeiro a ser criado, nada mais apropriado que seja também o primeiro a chegar.". Nunca gostei das ironias desse pivete, mas ultimamente ele estava com uma meta de vida, ou de morte, de me irritar até a última gota.
"Por favor, queira me acompanhar até a sala onde nos reuniremos." O acompanhei até uma enorme sala com uma mesa redonda, que estava mais organizada para um jantar do que para uma simples reunião. Todas as cadeiras eram singulares, e logo vi uma que me pareceu um tanto familiar...
"O que significa isso seu moleque insolente?" Perguntei. "Você logo descobrirá, aguarde. Enquanto isso, sente-se no lugar que você já conhece, e está escrito seu nome." Me respondeu com um tom jocoso.
Dirigi-me então até a poltrona onde eu iria sentar, que era exatamente igual a do meu escritório. Sentei me, e por incrível que pareça, a sensação de conforto era tão igual quanto à que jazia imóvel no meu escritório. Olhei os finos talheres com desdém, e os copos com curiosidade. Peguei a taça de vinho que estava cheia em minhas mãos, e cheirei o vinho que ali descansava. Lafitte. Safra de 1787. Era impossível não conhecer aquele vinho. O bastardo era um merda, mas pelo menos bom gosto, admito que ele tenha. Não senti nenhum cheiro além do Lafitte, logo, não tinha nada que não fosse vinho naquela taça. Sendo assim, tomei um bom gole e pus a taça de lado. Olhei os outros lugares vazios e me perguntei que raios que seria tão importante para reunir todos os imperdoáveis em um só lugar. Acontecimento que só houve uma vez em toda a história da existência das coisas. Esperar, era o único jeito de ver.
Olhei então para a plaquinha com meu nome escrito. Peguei-a em minhas mãos, e com letras finas escritas à ouro, li meu nome. Dei um enorme sorriso ao ler o nome mais lindo que existe em todo o universo:
ORGULHO."
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