Ser Historiador.

Hoje.
Ontem.
Amanhã.

Qual é meu campo?
Qual é minha área?
Qual é a pergunta?

Ontem, é onde eu me sinto bem,
Hoje, já não sei tanto assim.
Amanhã, nem sei o que contém.

Ouvir, dizer,
Pensar, reclamar, contestar,
Agir, mudar?

Meu presente me espanta,
Me causa asco.
Me ligo ao passado pois hoje,
Sou fruto do ontem.

Porque então não mudar o presente?
Porque, o porque?
Embora saiba que o presente jamais volte a ser passado,
Porque não transformá-lo num lugar que eu possa me sentir tranquilo?

Em meio à tanto acontecimento,
Ao constante desbravamento da verdade,
Se retesar não é se resetar,
Comentar não é compartilhar,
E o hoje, me parece cada vez mais distante,
E o ontem, me vêm cada vez mais constante.

Como não se perder?
Para não se perder na pergunta é necessário responder.
E a certeza da resposta, de ondem vêm?
E a certeza do que é certeza, o que contém?

Ser historiador é ser,
É ter, é saber, é conhecer,
É se levantar quando mandam sentar,
É gritar quando te mandam se calar,
É contestar quando mandam aceitar.

É anarquia? Não, é análise.
É testar, é se testar, é retesar,
É se desenvolver.

O filósofo com seus conceitos,
O sociólogo com sua ciência social,
A antropologia com o homem,
O direito, com a lei,
A arte, com o belo,
E a História, com o que?

Com tudo, contudo com nada.
A maleabilidade de percorrer por todos os lugares,
A probabilidade de ser tudo o que é,
Ser tudo o que quiser,
A liberdade de ser e de pensar,
O embasamento geral pra pensar e agir,
O ser é questionar, o ser e o devir.

É conter todas as particularidades,
É geralmente, ser particular,
E particularmente, é ser geral.

É se entender, como parte de um todo,
E não como parte que dominará o todo.
É relação, é relacional.

Me entendo então, como um pequeno mundo de grandes probabilidades.
Hoje, fruto de um ontem, 
A possibilidade de agir,
E construir meu amanhã,
Para que ele se torne um hoje tão tranquilo e envolvente, 
Como o ontem.

O Veneno.

E só bastou uma gota,
De um amargo elixir,
Para ver o que não queria,
Para entender o que sentia,
E dar nome, à tudo que via.

Eu sinto o perigo.

Deitado, extasiado, sem crer,
Sinto meu sangue descer,
E junto o veneno levar,
Eu não queria, mas o sinto se espalhar.

Não que eu não possa me mover, entenda,
Vejo o cigarro acender, me esquenta,
E o café frio à me encarar,
E sob a luz do luar,
A lágrima escorrer.

Força, eu me digo.
Mas já é tão difícil continuar lutando contra...
Eu não quero ser engolfado pelo o efeito do veneno,
Mas haverá outro jeito?

Não sei...
Tudo que eu acreditava parece perecer,
Tudo que está ruindo sem se ver,
A voz já não sai,
A lágrima não cai,
A fumaça não vai...

A nossa música, já não se ouve mais.
O nosso amor se transformou em bom dia,
Tão distante, e eu preciso que saiba,
Que você aqui já não habita mais.

Triste, isso perceber,
O tolo insiste, em não entender,
O que você faz constante questão,
De esfregar na minha cara, de pisar no meu coração,
De socar a minha auto-estima,
De estar cansado e você não me anima,
De querer que você seja igual à mim.

Erro meu.
Erro seu.
Erro qual?
Erro de quem?
E o que será de nós, meu bem?
E o que será de mim, sem eu?
E o que será de ti, sem o teu?
Quem estará lá?
Desse quem o que será?
Com quem contarei?
À quem falarei?

Não sei...
E tenho medo de responder todas estas questões.

Vou continuar deitado,
É o melhor que faço
Espero seu abraço,
Apesar de saber que ele jamais chegará como antes.

Que o cigarro queime,
Que o café acabe,
Que eu nunca mais durma,
Pra não ver chegar,
O dia em que o veneno irá me dominar.