Faça o certo com um sorriso, ou não o faça.

Era tarde.

Ouvia dentre todos os sons do silêncio, o estalar do isqueiro e o crepitar do tabaco em seguida. Despejou uma dose de whisky no copo sujo, olhou melhor e jogou o copo no chão, tomando direto do gargalo da garrafa quadrangular. Despejou ruídos, berros, gemidos e sons indefinidos só para cortar a perfeição do silêncio. O silêncio era jocoso, e parecia querer lhe ferir. Começou a bambolear-se ao levantar, esbravejando os urros indecifráveis ainda, a garrafa chacoalhando na mão, e seu corpo tão dormente que poderia levar uma tacada na cabeça que ainda por cima riria. Jogava as coisas ao seu redor para todos os lados, sentia desejo de despejo, queria despejar tudo em tudo que alvo fosse. Sentia uma ira fora do normal, mas não se entendia. Via tudo em um borrão, não sabia se era lágrimas, não sabia se era o quente de seu corpo bêbado, não sabia se era de tanto rodar, não sabia. Finalmente depois de tanto se misturarem as sensações, os lugares e os sentimentos, apagara ainda com a garrafa na mão, com uma perna sobre o sofá e a cara enterrada no tapete. Estava só, e do jeito que tinha procedido, parece que realmente sempre estivera só.

Era cedo.

O frio da manhã era demasiado vil para passar despercebido com o corpo jogado à revelia, somente com uma calça jeans e nada mais. Com a cabeça ainda rodando e sua pele arrepiada e rígida, foi fechar a janela da varanda, onde as cortinas dançavam melancolicamente, trazendo à tona a memória que o whisky apagara momentaneamente. Sentiu o rosto vermelho de raiva outra vez, dessa vez não despejaria imensas doses de nicotina no pulmão, ou amargas doses de Jack no fígado. Fez um café tão forte que parecia estar tomando pó sem água, sentou-se na cadeira perto da escrivaninha, puxou pra perto a máquina de escrever e despejou palavras mudas em papéis que voavam de raiva. Era parte de sua terapia de auto-flagelamento. Por longas horas só se ouvia o tec-tec dos botões da máquina, e a cerâmica da xícara de café batendo na madeira toda vez que era posta após um gole. Entrava o combustível, saía a ira em forma de poesia. Cantava toda sua tristeza em versos e mais versos, em páginas e mais páginas, sabendo que ninguém jamais veria tudo que tivera dito, ou se importado com tudo que tivera sentido, mas seus versos cortantes tinham destinatário e onde quer que estivesse sentiria por telepatia toda sua mistura melancólica de tristeza, raiva e solidão.

Era tarde.

Não era necessariamente tarde de forma cronológica, mas era tão tarde para tantas outras coisas... Era tarde para que soubesse de um motivo para que seu dia tivesse terminado de começar ali na máquina de escrever, ou que esperasse uma centelha de preocupação ou afeto ou compreensão vindos do lado oposto o qual sua ira viajava, e era tão tarde pra que compreendesse tudo isso. Era tarde pra que se desse ao luxo de afogar-se em tristeza e dor e não tomasse nenhuma atitude perante a si, sendo injusto consigo permanecer nesse deplorável estado de coisas, enquanto o alvo de sua ira estaria, sabe-se lá, muito melhor. Era tarde pra lembrar-se de que sempre que se prometia algo, deveria cumprir e que não deveria cometer os mesmos erros, que não deveria ter as mesmas atitudes condescendentes... Era tarde pra se lembrar que já era tarde pra si. Era tarde pra tentar se agarrar em qualquer coisa que estava se despejando e escorrendo pra todos os lados de dentro de si, mas jamais esquecera de sorrir. Era muito tarde para todos os ''se'' dentro de todos os ''si''. Com efeito, a medida que ia ficando mais vazio, sorria mais, e tão subsequente à sua torrente de palavras jogadas ao léu já nem lembrava-se mais o que fazia incólume naquela cadeira velha.

Era certo.

Decidira-se por forçar-se a ficar bem, a qualquer custo, até o fim da semana. Com efeito, obrigava-se a sorrir, porque estava respirando e de olhos abertos, e isso era o tudo que tinha de fazer. E repetiria para si na semana seguinte, sentindo-se profundamente feliz de forma muito superficial. Seria a resposta fingir? Não, era apenas "ser profissional" no que se faz, e fazer bem o que se faz, quando sabia que nada faria. Faça o certo com um sorriso, ou não o faça.

É seu lema de vida.

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