Sonho em Espiral

Deitei na cama com o cansaço martelando meu corpo após uma noite de intensa música, com o zumbido ainda no ouvido, apaguei, mas não sem sonhar.

"Abro meus olhos, e encontro-me deitado numa cama de lençóis brancos, nu, com uma mulher de igual forma na minha frente. Não vi sua face, e ela não disse uma palavra, mas eu sabia que ela era familiar pelo som de sua respiração. Era serena e tranquila. Aproximei meu corpo do seu para ouvir melhor a sua respiração, e sentir o teu calor, quando encostei meu nariz no teu cabelo e senti seu doce perfume, que exalava tanto por ali como pela sua pele. Olhei por cima de seu corpo, você tinha na mão uma caneta vermelha e um papel onde nada tinha, mas ainda sim não consegui identificar teu rosto, e na hora pensei também que se pudesse, metade da mística seria desfeita no momento, então deixei-me levar por tudo aquilo.

Na densa noite gelada, conversávamos, discutíamos, gritávamos e sussurrávamos sem dizer uma só palavra, apenas com o silêncio da nossa respiração, palavras mudas rasgavam a aura de raciocínio e se fundiam na nossa frente. Sem dizer nada, ela me perguntou:
- Você acredita no amor?
Mudamente respondi:
- Talvez. Acredito certamente no Ser, no Viver e no Devir.
- E o que isso quer dizer?
- Bem...
Em exasperações, inspirações, fungadas e sussurro mudo, eu a expliquei que o Ser era a intensidade, e de que para aquilo não tinha medida, eu era intenso, dessa forma. Eu poderia passar a vida inteira tendo uma nesga de afeição por uma pessoa, assim como poderia desenvolver um desejo explosivo e latente dentro de horas por uma. Eu a expliquei que minha ideia de 'pra sempre' duraria só aqueles minutos, depois eu a reinventaria, junto com tudo mais que fosse necessário. Em seguida, que o viver, ou viver a arte ou a arte de viver, era se entregar puramente à sua humanidade, se permitir sentir tudo o que quisesse, pois de tudo que pode ser sentido, tudo é humano, além de ressaltar que o meu viver busca sempre sentir e aprender novos sentimentos, o meu viver clama por realizar todas as utopias em questões de segundo, e dentro desses segundos compreender uma vida inteira, incorporando tudo que possível for do mundo, dentro de mim. É também a música, em todo o seu amplo sentido, desde as notas mais perfeitas até o que aparentemente não é dotado de sentido. Mas o que a surpreendeu na verdade, foi quando expliquei que nenhum desses dois depende do devir, que é o tempo em sua maestria corrosiva, pois esse Senhor inexorável tudo modifica, a seu bel-prazer. Que eu procuro constantes variáveis em suas fórmulas imprecisas, e quero tudo aquilo que se renova, assim como meu amor pelo paradoxo que a única coisa constante no tempo é que tudo se modifica.

Aquilo fez seu corpo se aquecer e foi quando juntei o meu ao dela. Sem a menor preocupação em reconhecer sua face, ali eu já sabia quem ela era e o que ela pensava. Pus minha mão sobre a sua, e comecei a desenhar o que até então ela não tinha começado. Na verdade deixei simplesmente que nossas respirações, que agora estavam sincronizadas em uníssono, conduzissem minha mão por sobre a dela e várias espirais vermelhas saíram dali. Junto com nossas respirações, fundimos nossos corpos e passamos a ser um par de um só, acelerando a respiração e reduzindo seu compasso, o Ser o Viver e o Devir dançavam ao nosso redor exibindo tudo de melhor que podiam, até que por fim descansamos nossa respiração, no mesmo momento que o sul pungente da manhã rasgava a aurora pelo vidro da janela e eu podia sentir com meu nariz em sua pele o sorriso tenro que ali jazia. O que se seguiria depois? Não sei, não me interessava. Eu vivia na base do improviso, e reinventaria nós dois em pouco tempo."

E quando eu acordei, foi impressionante tudo que eu lembrava com tanta perfeição, mas logo concluí que é porque talvez nunca tive um sonho que retratasse com perfeita exatidão todas as minhas concepções e realidade.

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