A Apatia Da Madrugada Sem Fim.

"E lá estava aquele imenso projeto de gente apático como um doente, se revirando nos lençóis já muito tarde da noite. Dor era quase intrínseco ao seu ser, ele estava plenamente acostumado, mas o que ele nunca dantes houvera visto fora a sua materialização. Sim, ela se materializou duas vezes, uma em forma de angústia, que doía em seu peito, e a outra em forma de delírios. Era palpável seu sofrimento, que teve de ser posto no silêncio para que o mundo jamais visse tal absurdo pleno. A lágrima se recusava a cair, mas ele fez força pra expurgar ela e todo o resto de dentro de si, querendo a tranquilidade. Pobre idiota.

Ele se encolheu e fez força com o estômago, a garganta se comprimiu como se quisesse vomitar as cordas vocais, e doía, porque não saía nada. Sentiu o arder das lágrimas pesadas escorrerem como ácido pelo rosto, e atingirem como pedras de toneladas o travesseiro. Sentiu seus músculos se contorcerem, seus dedos se apertarem, seu ombro saltar com o peso do ar que era arrancado à golpes do seu peito, sua visão fora de foco que procurava uma direção mas só encontrava o vazio, e a furiosa sequência de filmes que corriam feito raposas assustadas pela sua cabeça. Cenas. Cenas que ele revivia intensamente naquele momento, com a esperança de expurgá-las pra fora do seu pensamento.

E se fazia perguntas, obviamente, caso contrário, como entenderia o sentido o que procurava? Mas eram perguntas repletas de respostas, problemas repletos de soluções. Eram mentiras repletas de verdades, era ignorância tão palpável que chegava a ser líquida. Ele ignorava o sentido de suas perguntas, ridicularizava seus problemas, e se cegava diante da verdade. 

E as lágrimas jorram pelos seus olhos, agora com vontade, e dor, muita dor, em seu peito, em suas costas, em seu estômago, em todos os lugares que pudessem exprimir músculos dos mais insólitos. E sua visão fora de foco mira o horizonte morto do seu teto, sem conseguir enxergar nada com uma forma precisa, mas ele a vê. Vê sua mão se estender, escuta o canto da sereia, e estica o seu braço pra poder segurar a mão com firme certeza, mas no último segundo, a visão se apaga, e ele cai com força na cama, com seus músculos tão exaustos que pareciam ter feito mil horas ininterruptas de exercícios, sua garganta estava em brasas e doía só de mexer o pescoço, pois a força que fez pra vomitar o silêncio que se acumulava cada vez mais dentro de si o levou à contorções nunca dantes imaginas por ele mesmo, ele queria vomitar, cuspir, jogar pra fora de si aquele silêncio, aquele vazio, aquele vácuo, mas nada saía, e ele tentava incessantemente fazendo força numa esperança débil. Suas lágrimas jorravam como se tivesse ocorrido uma tsunami interna. De água não, mas de fatos, com certeza.

Quando deu-se por vencido, ou estava tão cansado pra se mover - não se lembra - olhou apaticamente o vazio do escuro do qual havia fugido, e ao qual retornou, ironicamente, sem conseguir piscar, e assim permaneceu até ele apagar de exaustão, completamente sem qualquer resquício de energia remanescente em seu organismo. Não se lembra se apagou com os olhos ainda abertos, nem o que restou de seus músculos.

Foi um sonho? Não. Passou por todos estes momentos com todos estes detalhes cheios de precisão, sem tirar nem por. Morreu? Não. 

Acordou."

Nenhum comentário:

Postar um comentário